uma crônica sobre o luto

Eu não sei lidar com a morte.
Seja de quem for.
Por isso, quando aquelas crianças me perguntaram para onde a avó deles havia ido, eu tive que chorar.
Por isso chorei.
“Foi para o Céu” — eu disse à elas. Sim. O Céu. Lugar místico, além do nosso poder de decisão.
“Onde fica o céu?” — elas me perguntaram.
O que eu deveria responder?
“Só as pessoas que vão embora sabem onde fica o Céu” — respondi, ainda chorando. “Garanto que é um lugar legal. É o lar dos anjos também.”
“A gente pode ir também?”
“Só quando chegar a hora” — e que demorasse muitos anos para isso.
“Mas a vovó vai voltar, né?” — acho que essa é a pior parte do meu trabalho.
“Não. Quando a gente vai para o Céu, não tem como voltar.” — minha voz fraquejou. Acho que elas entenderam porque eu estava chorando – porque começaram a chorar também. Lábios trêmulos e grandes olhos que deixavam derramar lágrimas cristalinas.
“Mas.... A vovó tem que voltar! A gente gosta dela!”. Eu também gostava.
Porque ela tinha que ir?
E porque deixaram a tarefa de explicar a morte para as crianças de cinco anos comigo?
O menorzinho me puxou pela camiseta e eu me abaixei. 
Era o único que não chorava.
“A vovó tá bem” — ele disse — “Tá morando com Jesus.”
Olhei bem para ele. Era o mais novo, o mais pequeno, o mais calado.
“Sim...” — balbuciei — “E quem contou? A sua mamãe?” — consequentemente, a minha prima.
“Não” — ele sorriu e apontou para a sala onde o corpo estava sendo velado. — “Foi a vovó. Ela disse para mim.”
Não ousei olhar naquela direção — a que ele apontava.
Enquanto todos os outros choravam e davam soluços de partir qualquer coração, o menorzinho abriu um sorriso para mim. Os dentinhos pequenos, todos de leite ainda.
E, enquanto as minhas lágrimas insistiam em brotar, sorri também.
E concordei.
“É.” — devia fazer algum sentido, talvez, pensei, ainda sorrindo. “Ela está mais do que bem agora.”


4 Comentários

  1. Ler isso escutando Pompeii foi de partir o coração :'(
    Acho que todos temos saudade de alguém que já se foi...

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    1. </3
      Saudade é a única coisa que arde e não mata :C

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  2. Que crônica linda!
    A morte é difícil de ser explicada para qualquer um, ainda mais para uma criança.
    Achei uma gracinha o menininho no final. E é assim mesmo, só nos resta ser otimistas e pensar que eles estão bem onde quer que estejam.
    Beijos!

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    1. Ane, fofaaaaaaaa!
      Obrigada! <3
      Realmente, falar de morte com uma criança é uma coisa incrivelmente complicada... mas, bem, é a vida! :c
      Obrigada pela visitinha!!
      bjbj

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