Eu costumo dormir tarde, porque passo tempo demais lendo e escrevendo.
Ele gosta de dormir cedo, para poder acordar cedo. E eu tento entender isso, assim como ele tenta entender que nem sempre estarei dormindo de acordo com seu horário (maluco).
São três colheres exatas de açúcar que coloco no meu café, enquanto ele faz uma careta e eu explico que de amarga já chega a vida. Ele discorda totalmente e não se importa nem um pouco que eu tenha acabado de acordar; depois de ler o jornal, ele levanta, deixando-o para trás, aberto nas palavras-cruzados, junto com um lápis apontado.
Não importa a estação, sempre uso meias dentro de casa. Ele gosta de tirar sarro disso e sempre anda de pés descalços, mesmo no inverno rigoroso. E é sempre o primeiro a ficar de cama, gemendo como um garotinho de sete anos.
Brigamos pelo último pedaço de pizza, sempre, sem exceções. Na maior parte das vezes, ele ganha. Nas partes restantes, ele me deixa ganhar.
Não sou muito organizada e ele soube disso desde o primeiro dia. Arruma seus CDs em ordem alfabética e você irá encontrar meus livros até mesmo no banheiro, em cima da geladeira ou em alguma parte escura do armário, perdidos entre sapatos.
Ele acha engraçado quando vou em festas com sapatos de salto. Isso só serve para que eu fique reclamando a festa inteira, enquanto ele foge de mim, já que irei obriga-lo a me carregar nas costas até o carro na hora do adeus.
Ele odeia admitir, mas perde para mim na sinuca e nos jogos de cartas. Sempre digo para ele que não precisa se emburrar por causa disso – tenho um irmão mais velho e cresci antes da hora, considerei uma obrigação saber limpar um marmanjo no pôquer … mesmo que seja ele.
De algum jeito, durante a noite, acabo roubando as cobertas dele, obrigando-o a se encolher em minha direção. E sempre acabo ocupando mais espaço do que deveria, mas ele tenta não reclamar – muito – por conta disso.
Ele abomina minhas playlists – “isso não é música”. Só porque ouve indie rock, não considera pop música. Às vezes, só para aborrecê-lo, entramos em uma discussão de mentirinha. E eu sempre acabo vencendo. (A estação de rádio do carro nunca muda, é sempre a que eu escolhi).
Gosto de roubar as camisas dele e ele gosta de tirá-las de mim.
Ele sempre lê por primeiro meus textos e funga nas partes tristes – como se chorar fosse roubar sua masculinidade – e gargalha nas partes erradas. Pior ainda: é como se ele estivesse me lendo, não minhas histórias.
Revezamos nossos sábados. Alguns nós ficamos em casa e assistimos a filmes ruins – como Godzilla – ou filmes nem tão ruins, mas tão nerds quanto – como Batman. Em outros sábados, ele me deixa escrever durante o dia e então saímos à noite. Barzinho com os amigos, boates e baladinhas (nem sempre dá em boa coisa, já que eu gosto de uma boa bebida, mas nunca sei a hora de parar). Geralmente, depois desses sábados, ele cura minha ressaca, lendo Bukowski para mim. Ele é um cara especial.
Há ainda os sábados em que saímos antes de amanhecer o dia e descemos a serra. Mesmo no inverno. Não tem turista algum entupindo estradas ou a praia. Corremos pela areia, riscando nossos nomes, então sentamos – às vezes eu me lembro de levar a velha toalha xadrez, outras não – e comemos fruta, pão e iogurte. Às vezes, levo pudim. E ele diz que irão parar nas minhas coxas e faz uma cara engraçada, então rolamos na areia, enquanto grito que estou furiosa que ele pense isso, mas, na verdade, estou rindo histericamente. Tem os fins de semana que nos isolamos no velho chalé da chácara da minha família e vivemos uma vida ociosa e sem internet.
Ele – assim como o meu irmão – não gosta que eu encha a cara, mas é algo necessário, até mesmo –principalmente – para uma garota. De vez em quando, vejo uma das garotas da faculdade dele se atirando para cima como se nunca tivessem visto um homem antes e eu simplesmente ignoro – grito por dentro, mas sorrio por fora. Ele parece não ver que poderia ter qualquer uma, mas sempre é educado com elas. Sempre é gentil.
Ele não tem uma moto, ou usa jaqueta de couro e luvas de motoqueiro, como os bad boys dos livros que eu tanto gostava quando era mais nova. Não tem fama de pegador, galinha. Nada. A mãe dele me contou um dia que sempre foi meio antissocial e preferiu livros. Penso nisso, mais do que deveria, acho. É como se eu e ele tivéssemos nascido para completar. Ser a metade e tornar tudo um inteiro.
Ele lê livros de filósofos nas espreguiçadeiras da piscina da casa dos pais, enquanto eu leio Marian Keyes. Às vezes, quando nos deitamos na grama molhada, à noite, ele aponta para as constelações e me explica tudo, detalhadamente. Enquanto eu fico pensando que essa cena – nossa – seria ótima em um livro.
Gosto de música alta, ele vive pedindo para que eu baixe o som do rádio.
E teve aquela noite.
A noite do casamento da irmã mais velha dele. Acabei pegando o buquê – só porque empurrei uma garota de treze anos, com aparelho nos dentes, e, certo, depois me arrependi disso; ele riu quando contei sobre isso.
Estava tocando I’m Yours e ele parecia compenetrado em nos fazer balançar de um lado para o outro. Foi olhando nos olhos dele que entendi que amei ele por todos esses dias, meses e ano. Foi ali que vi que poderia ter uma vida.
“E então?” era ele. “O que acha?”
“Do quê?”
Ele me girou, fazendo-me ficar de frente para a irmã, que dançava do outro lado do salão com o marido.
“Disso”. Pausa. “Nós dois”.
“Você…?”
“Sim. Eu.”
“Sou tua”. Falo, porque é a verdade que meu coração grita.
“E eu sou teu hoje, amanhã e depois. Sou teu e sempre serei. Meus filhos serão os seus. E, com brigas, com bebedeira, com livros sendo escritos durante madrugadas, com meias, sem meias, bagunçando a casa, queimando a comida e errando a quantidade de amaciante na roupa. Sou teu. Inteiro, pedaço por pedaço, parte por parte. E há mais aqui dentro do que posso falar. ” Ele sorri. “Mas posso mostrar. ”
Ele me gira lento. E me puxa perto. Mais perto. Mais perto. Estamos colados um ao outro.
“Agora?” pergunto. “Vai me mostrar agora?”;
“E até o meu último dia de vida, menina.”


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2 Comentários

  1. Ai que texto lindo

    Cadê o botão de compartilhar?

    Rolou até uma invejinha aqui da moça... mas passou ;)

    Ai, tão fofo... tão.. Ai, amei, pronto, acho que já serve hehee

    bj e até o/

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    Respostas
    1. Oi, Camilaaaaaa! Obrigada!! Também queria ser essa moça sos hahaha
      beijão!

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